
• Indicadores recentes mostram a Selic a 13,75%, PIB em alta de 0,5% no segundo trimestre e queda na confiança de consumidores e empresários mensurada pela FGV. • O Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) recuou para 110,8 pontos em setembro de 2026, mas segue em patamar classificado como elevado. • Existe distinção entre risco, que permite calcular probabilidades, e incerteza, em que faltam dados para determinar o desfecho com precisão. • Em cenários imprevisíveis, ganham valor a flexibilidade, a preservação de alternativas e a avaliação do custo de agir versus o de esperar. • Tomar boas decisões não exige prever o futuro com exatidão, mas focar nas variáveis controláveis e desenhar cenários para diferentes possibilidades.
Tomar decisões nunca foi uma tarefa simples. Mas há momentos em que decidir parece ainda mais difícil: quando o presente oferece informações suficientes para mostrar que alguma coisa está mudando, mas o futuro ainda não permite saber exatamente para onde.
É nesse ambiente que pessoas e empresas precisam continuar tomando decisões.
Comprar ou não comprar. Contratar ou esperar. Investir ou preservar caixa. Mudar de emprego ou permanecer onde está. Expandir uma operação ou adiar o projeto. Fazer um financiamento ou esperar condições melhores.
Essas decisões acontecem todos os dias, mas não são tomadas em um vácuo. Elas são influenciadas pelo ambiente econômico, pelas expectativas e pela percepção que cada pessoa ou organização constrói sobre o futuro.
No Brasil, os dados mais recentes mostram um cenário que merece atenção.
Em setembro de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano. Na mesma decisão, o Banco Central afirmou que a atividade econômica apresentava moderação gradual, embora permanecesse resiliente, e que o mercado de trabalho continuava aquecido. A autoridade monetária também registrou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 estavam em 4,9% e 4,3%, respectivamente, acima da meta de inflação.
Ao mesmo tempo, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação ao primeiro trimestre, após ter avançado 1,1% no primeiro trimestre. No acumulado de quatro trimestres até o segundo trimestre, o crescimento foi de 1,9%.

A inflação também apresentou uma fotografia diferente daquela que muitas vezes aparece em uma manchete isolada. O IPCA acumulou 4,22% em 12 meses até agosto de 2026, enquanto a variação mensal do índice foi de -0,32%.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/d/b/x0ZB3BRcac7SXfHc9IFQ/260911-grafico-ipca-inflacao-oficial-mes-a-mes.jpg)
E existe outro indicador particularmente interessante para compreender o momento: o Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), calculado pela Fundação Getulio Vargas.
Em setembro, o indicador recuou 0,9 ponto, chegando a 110,8 pontos. Ainda assim, a própria FGV classificou a incerteza como elevada.
Esses números não dizem que o futuro será necessariamente melhor ou pior.
Eles mostram outra coisa: o ambiente no qual pessoas e empresas estão tomando decisões é complexo e possui diferentes sinais acontecendo ao mesmo tempo.
Quando a economia deixa de ser um assunto distante

É comum tratar indicadores econômicos como assuntos restritos a economistas, investidores, governos e grandes empresas.
“Mas a economia aparece em decisões muito mais simples.
Uma família que avalia um financiamento está olhando para juros.
Uma empresa que precisa comprar uma máquina está olhando para custo de capital e demanda.
Um profissional que pensa em mudar de emprego está avaliando renda, estabilidade e perspectivas.
Um empreendedor que pretende abrir uma nova unidade precisa considerar o custo da operação, o comportamento dos consumidores e as condições de crédito.
Em outras palavras, a economia não é apenas aquilo que aparece nos jornais.
“Ela também é o contexto no qual fazemos escolhas.
Quando a Selic está em 13,75% ao ano, por exemplo, isso não significa que todas as pessoas pagarão exatamente essa taxa em um empréstimo. A Selic é a taxa básica de juros da economia, e as taxas efetivamente cobradas de consumidores e empresas dependem de diversos outros fatores.
Ainda assim, a taxa básica influencia as condições financeiras da economia.
Por isso, uma mudança na política monetária pode alterar o ambiente no qual famílias e empresas avaliam crédito, consumo e investimento.
O Banco Central, inclusive, descreve a política monetária como um mecanismo que busca influenciar as condições financeiras e a demanda da economia com o objetivo de conduzir a inflação para a meta.
A questão, portanto, não é simplesmente saber se os juros subiram ou caíram.
É entender como as condições econômicas modificam o espaço disponível para tomar decisões.
Incerteza é diferente de risco

Existe uma diferença importante entre risco e incerteza.
Em uma situação de risco, conseguimos identificar diferentes resultados possíveis e, em determinadas circunstâncias, estimar suas probabilidades.
Já a incerteza está associada a situações nas quais não temos informações suficientes para determinar com precisão o que acontecerá.
Na prática, decisões empresariais e pessoais frequentemente possuem os dois elementos.
Imagine uma empresa que está avaliando um investimento de R$ 500 mil.
Ela pode estimar quanto espera vender, quanto deverá gastar e qual seria o retorno esperado.
Esses elementos podem ser modelados.
Mas algumas perguntas continuam abertas:
Como estará a demanda daqui a um ano?
Como estarão os custos?
Como estará o crédito?
Haverá mudanças regulatórias?
Como estarão os concorrentes?
A empresa não consegue eliminar essas perguntas.
Ela pode, entretanto, construir cenários.
Essa diferença é fundamental.
“Planejar não significa prever perfeitamente o futuro. Significa preparar-se para diferentes possibilidades.
O que os indicadores de confiança revelam
Os indicadores de confiança ajudam a entender outro componente dessa discussão: as expectativas.
Em setembro de 2026, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV IBRE recuou 0,5 ponto, para 84,2 pontos, atingindo o menor nível desde novembro de 2022. A queda foi influenciada principalmente pela piora das expectativas.
O dado não significa que todos os brasileiros estejam pessimistas.
Um índice de confiança é uma medida agregada. Ele representa o comportamento de um conjunto de entrevistados e não permite concluir individualmente o que cada pessoa pensa ou fará.
Mas o indicador é relevante porque mostra uma alteração mensurável na percepção dos consumidores pesquisados.
A confiança empresarial também apresentou recuo.
Em setembro, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) do FGV IBRE caiu 1,2 ponto, para 89,3 pontos.
Mais uma vez, é importante interpretar corretamente.
O indicador não significa que todas as empresas estejam reduzindo investimentos ou contratando menos pessoas.
Ele indica que, no conjunto pesquisado pela FGV, a percepção empresarial ficou menos favorável.
Essa diferença entre o que o dado mede e o que podemos concluir a partir dele é fundamental.
O excesso de informação também pode ser um problema
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/A/c/l3zR2YSJegEl0df3GV2Q/foto2-comunicacaopessoas.png)
Existe uma característica particular do nosso tempo: nunca tivemos acesso a tantas informações.
Em poucos minutos, uma pessoa pode acompanhar a decisão do Banco Central, a inflação, o mercado financeiro, notícias internacionais, acontecimentos políticos e opiniões de especialistas.
Isso parece uma vantagem absoluta.
Mas informação e conhecimento não são a mesma coisa.
Ter acesso a mais informações não garante uma decisão melhor.
Uma empresa pode ter centenas de indicadores em seus dashboards e ainda assim não saber qual decisão tomar.
Uma pessoa pode acompanhar dezenas de notícias sobre economia diariamente e continuar sem saber se determinada decisão faz sentido para sua realidade.
A questão passa a ser:
Quais informações realmente importam para a decisão que preciso tomar?
Essa é uma habilidade cada vez mais importante.
Não se trata de consumir menos informação necessariamente.
Trata-se de aprender a separar:
dado de opinião; fato de interpretação; tendência de acontecimento pontual; informação relevante de excesso de informação.
A incerteza pode mudar o comportamento

Quando o futuro parece menos previsível, uma possibilidade é que pessoas e organizações passem a valorizar mais a flexibilidade.
Em vez de assumir compromissos difíceis de reverter, pode fazer sentido preservar alternativas.
Uma empresa pode preferir testar uma nova operação antes de fazer um investimento maior.
Um profissional pode desenvolver uma nova competência antes de deixar o emprego atual.
Uma família pode reforçar sua reserva financeira antes de assumir uma dívida de longo prazo.
Essas não são regras universais.
São possibilidades de comportamento diante de ambientes nos quais o futuro apresenta maior incerteza.
E existe uma distinção importante: não agir também é uma decisão.
Esperar pode ter um custo.
Agir também pode ter um custo.
O desafio está em comparar os dois.
O que está sob nosso controle?

É justamente nesse ponto que economia e desenvolvimento pessoal se encontram.
Nenhuma pessoa controla a inflação.
Nenhum empresário controla sozinho a taxa Selic.
Uma empresa não controla o cenário internacional.
Um profissional não controla todas as mudanças do mercado de trabalho.
Mas existem variáveis que podem ser influenciadas.
Uma empresa pode controlar melhor seus custos.
Pode acompanhar seus indicadores.
Pode conhecer melhor seus clientes.
Pode criar diferentes cenários financeiros.
Pode desenvolver seus profissionais.
Pode melhorar seus processos.
Pode utilizar dados para reduzir decisões baseadas apenas em percepção.
Uma pessoa pode desenvolver novas competências.
Pode organizar melhor suas finanças.
Pode buscar informações de fontes confiáveis.
Pode avaliar diferentes cenários antes de tomar uma decisão.
Pode identificar quais riscos realmente estão sob seu controle.
Essa distinção é importante porque ambientes incertos podem produzir uma sensação de falta de controle.
Quando tudo parece imprevisível, existe o risco de concentrarmos nossa atenção justamente naquilo que não podemos modificar.
Uma alternativa é inverter a pergunta.
Em vez de perguntar apenas:
"O que vai acontecer?"
podemos perguntar:
"O que posso fazer diante de diferentes possibilidades?"
O papel dos dados nas decisões

Dados não eliminam a incerteza.
Essa é uma ideia importante.
Mesmo com bons indicadores, ninguém consegue prever perfeitamente o futuro.
O papel dos dados é outro: melhorar a qualidade das decisões.
O PIB mostra uma fotografia da atividade econômica em determinado período.
O IPCA mostra a evolução dos preços dentro de sua metodologia.
A Selic mostra a taxa básica definida pelo Banco Central.
Os indicadores de confiança mostram percepções captadas nas pesquisas.
O IIE-Br procura medir a incerteza econômica.
Cada indicador responde a uma pergunta diferente.
O erro começa quando tentamos fazer um único indicador responder a todas as perguntas.
Uma empresa que acompanha apenas faturamento pode deixar de perceber mudanças no custo de aquisição de clientes.
Uma pessoa que olha apenas para salário pode ignorar endividamento e custo de vida.
Um gestor que olha apenas para produtividade pode deixar de observar rotatividade e clima organizacional.
O dado precisa estar conectado à pergunta que queremos responder.
Decidir sem ter certeza
Talvez essa seja uma das principais competências para pessoas e empresas em ambientes complexos.
Decidir sem ter certeza não significa decidir de maneira irresponsável.
Significa reconhecer que algumas decisões precisam ser tomadas antes que todas as informações estejam disponíveis.
O Banco Central não espera conhecer o futuro com absoluta certeza para tomar decisões de política monetária.
Empresas não podem esperar saber exatamente quanto venderão nos próximos cinco anos para começar a planejar.
Pessoas não conseguem conhecer todas as consequências de uma mudança profissional antes de realizá-la.
A decisão acontece no presente.
O futuro vem depois.
Por isso, uma boa decisão não deve ser avaliada apenas pelo resultado que aconteceu posteriormente.
Uma decisão pode ter sido racional com as informações disponíveis naquele momento e, ainda assim, produzir um resultado diferente do esperado.
Esse ponto é especialmente importante para líderes.
Liderar em um ambiente de incerteza não significa apresentar certezas artificiais.
Significa deixar claro o que já sabemos, reconhecer o que ainda não sabemos, definir prioridades e estabelecer como a organização irá reagir caso as condições mudem.
O preço da incerteza

Os dados mais recentes mostram um cenário com vários elementos simultâneos.
A Selic está em 13,75% ao ano. [1]
O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior. [2]
O IPCA acumulado em 12 meses até agosto estava em 4,22%. [3]
O Indicador de Incerteza da Economia recuou em setembro, mas permaneceu em nível elevado. [4]
A confiança do consumidor caiu para 84,2 pontos. [5]
A confiança empresarial também recuou. [6]
Nenhum desses dados, isoladamente, determina o que uma pessoa ou uma empresa deve fazer.
Eles ajudam a construir o contexto.
E talvez essa seja a principal lição.
Incerteza não significa ausência de informação.
Às vezes, significa ter informações suficientes para perceber que existem diferentes caminhos possíveis.
É nesse cenário que pensamento crítico, dados e capacidade de adaptação se tornam importantes.
O objetivo não deveria ser encontrar alguém capaz de prever perfeitamente o futuro.
Deveria ser desenvolver pessoas e organizações capazes de tomar boas decisões mesmo quando o futuro permanece parcialmente desconhecido.
Porque não podemos controlar todos os fatores que moldam a economia.
Não podemos controlar todas as decisões políticas.
Não podemos controlar todos os movimentos do mercado.
Mas podemos melhorar a maneira como interpretamos informações, avaliamos alternativas e agimos diante delas.
O futuro continuará sendo incerto. A nossa capacidade de tomar decisões não precisa ser.
Referências
[1] Banco Central do Brasil — Comunicado nº 45.963, de 16 de setembro de 2026.
Decisão do Copom sobre a taxa Selic e avaliação do cenário econômico.
[2] IBGE — Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, 2º trimestre de 2026.
Dados oficiais sobre o PIB brasileiro.
[3] IBGE — IPCA / Inflação.
Dados oficiais de inflação referentes a agosto de 2026.
[4] FGV IBRE — Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br), setembro de 2026.
Dados sobre a evolução da incerteza econômica.
[5] FGV IBRE — Índice de Confiança do Consumidor (ICC), setembro de 2026.
Dados sobre confiança dos consumidores.
[6] FGV IBRE — Índice de Confiança Empresarial (ICE), setembro de 2026.
Dados sobre confiança empresarial.
Leia também
Crise da TURP ultrapassa o transporte e afeta a economia e a rotina dos petropolitanos
Por Thiago LealO perigo ao seu lado: por que o Brasil ainda depende tanto das rodovias para transportar combustíveis?
Por Thiago LealDa cautela à votação: o que mudou na postura de Davi Alcolumbre sobre a escala 6x1?
Por Thiago Leal0 comentários
O autor da mensagem, e não o Grupo Festina, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso dos Comentários.