
• Os desastres climáticos aprofundam desigualdades históricas ao atingirem com mais severidade quem possui menos recursos para se proteger. • A crise climática provoca migrações imediatas ou graduais, mas também resulta na imobilidade forçada de quem não dispõe de meios para partir. • No Brasil, pessoas de baixa renda, mulheres, negros e povos indígenas enfrentam maior exposição aos riscos e menor capacidade de resposta. • As políticas públicas precisam ir além do resgate emergencial para garantir moradia, trabalho, infraestrutura e reconstrução comunitária contínua.
As mudanças climáticas não podem, há muito tempo, ser compreendidas apenas como uma questão ambiental ou de variação habitual dos ciclos da natureza. Suas causas e seus efeitos tocam a economia, a organização das cidades, as relações sociais e, cada vez mais, a própria capacidade das pessoas de permanecerem ou de se deslocarem de onde vivem.
Enchentes, secas, tempestades, deslizamentos e outros eventos extremos têm provocado deslocamentos populacionais que revelam um problema que ultrapassa a ocorrência do desastre em si: quem consegue permanecer, quem precisa partir e, principalmente, quem possui condições para reconstruir a própria vida depois de perder sua casa, seus bens e seus meios de subsistência?

Desigualdade diante do risco
Inicialmente, a fim de compreender a questão posta, é necessário reconhecer que os desastres não atingem todos da mesma maneira. A crise climática encontra sociedades marcadas historicamente por profundas desigualdades. Desse modo, seus impactos tendem a ser mais severos justamente sobre aqueles que possuem menos recursos para se proteger e menos influência sobre as decisões que definem a ocupação dos territórios.
Essa realidade está relacionada ao próprio modelo de desenvolvimento econômico. A busca incessante pelo crescimento e pelo lucro contribuiu para uma exploração intensa da natureza e para a degradação dos ecossistemas. O problema não está apenas na ocorrência de fenômenos naturais agravados pela destruição, mas também na forma como a sociedade se organiza diante deles. Quando o crescimento econômico é priorizado em detrimento da sustentabilidade, os custos ambientais e sociais acabam sendo transferidos para toda a coletividade.
As mudanças climáticas, portanto, podem ser compreendidas como um fator cada vez mais relevante para a mobilidade humana. Algumas pessoas são obrigadas a abandonar seus territórios imediatamente após um desastre; outras deixam suas localidades gradualmente, à medida que perdem condições de trabalho, acesso a recursos naturais ou segurança. Há ainda aqueles que gostariam de partir, mas não possuem recursos ou oportunidades para tanto. A mobilidade, nesse contexto, possui também uma face oposta: a imobilidade forçada.

Quando o desastre também desloca pessoas
Para encarar o desafio, é imprescindível observar de forma ampla a dimensão do problema. É necessário perguntar quem são as pessoas que se deslocam e por que determinadas populações estão mais expostas aos riscos.
“As mudanças climáticas se relacionam a uma série de fatores interconectados. Desigualdade socioeconômica, degradação ambiental, conflitos, falhas de governança, insegurança alimentar e impactos sobre cidades e infraestruturas não podem ser analisados como problemas completamente separados.
É justamente nesse ponto que a mobilidade humana deixa de ser apenas uma consequência dos eventos climáticos e passa a revelar desigualdades que já existiam antes do desastre. Uma enchente pode atingir diferentes moradores de uma mesma cidade, mas seus efeitos não serão necessariamente iguais. Uma família com recursos financeiros pode conseguir deixar temporariamente sua residência, alugar outro imóvel e substituir seus bens. Outra, em situação de vulnerabilidade, pode perder simultaneamente moradia, trabalho, documentos, acesso ao transporte e vínculos comunitários.
“No Brasil, populações historicamente marginalizadas estão entre as mais afetadas. Comunidades de baixa renda, mulheres, pessoas negras, povos indígenas e tradicionais, entre outros grupos vulnerabilizados, podem enfrentar maior exposição aos riscos e menor capacidade de resposta. O desastre, nesse contexto, não cria sozinho a desigualdade: ele expõe e aprofunda desigualdades que já estavam presentes.
Por isso, é inadequado tratar o deslocamento provocado por desastres apenas como uma questão de emergência. Retirar pessoas de uma área de risco é fundamental, mas a resposta não pode terminar quando o perigo imediato passa. É necessário pensar também em moradia, trabalho, serviços básicos, reconstrução das comunidades e garantia de direitos. Caso contrário, o deslocamento pode representar apenas a transferência de uma vulnerabilidade de um território para outro.

Quem são os deslocados climáticos?
Outro desafio está na própria definição dessas pessoas. Termos como “migrante ambiental”, “deslocado ambiental” e “refugiado climático” aparecem em diferentes debates para designar aqueles que deixam seus territórios em razão de transformações ambientais. A dificuldade de estabelecer categorias precisas decorre, em parte, do caráter multicausal da mobilidade. Muitas vezes, fatores ambientais se combinam com pobreza, conflitos, condições econômicas e ausência de oportunidades.
Essa complexidade também exige que as políticas públicas sejam capazes de considerar tanto a mobilidade quanto a imobilidade. Não basta imaginar que todas as pessoas afetadas poderão simplesmente deixar uma área de risco. Para algumas delas, partir pode ser economicamente inviável, socialmente doloroso ou até impossível.
Mais do que partir: reconstruir
Diante desse cenário, enfrentar os deslocamentos climáticos exige mais do que respostas emergenciais. É necessário integrar políticas ambientais, urbanas, sociais e de proteção de direitos, considerando que os riscos estão conectados e que seus efeitos são distribuídos de maneira desigual.
A crise climática, portanto, também é uma crise de mobilidade, de justiça e de proteção social. Se os eventos extremos tendem a se intensificar, a pergunta não deve ser apenas quantos desastres ocorrerão, mas quais grupos estarão mais expostos e quais condições terão para responder a eles. Afinal, quando uma pessoa é obrigada a abandonar seu território por não encontrar ali condições mínimas de segurança e sobrevivência, não estamos diante apenas de um fenômeno ambiental. Estamos diante de uma questão social e política que exige respostas igualmente amplas.
Este artigo contou com o apoio de inteligência artificial em diferentes etapas de seu processo de produção. O conteúdo final foi revisado e validado pelo autor.
Fontes:
- BBC News Brasil - Colapso glacial: o fenômeno que causou a enchente repentina na fronteira entre Nepal e Tibete
- G1 - Desastre climático que matou 6 pessoas e atingiu metade de SC causou R$ 1,2 bilhão em prejuízos
- GAGLIARDI, Marília Papaléo; RODRIGUEZ, Zenaida Luisa Lauda; BROETTO, Valeriana Augusta; SANTOS, Leilane N. dos Reis. Mobilidade humana no contexto da mudança climática e desastres: entre a emergência e a invisibilidade. In: MOREIRA, Danielle de Andrade et al. (org.). Federalismo cooperativo e desastres: desafios para a governança climática no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2025. p. 257–271.
- LEHMEN, Alessandra. Mudanças climáticas, riscos interconectados e mobilidade humana. Revista Direito Ambiental e Sociedade, [S. l.], v. 15, n. 1, p. 1–19, 2025. DOI: 10.18226/22370021.v15.n1.01.
- National Geographic - Desastre em Petrópolis: população vulnerável acentua impacto da crise climática
- National Geographic - Terremotos, tsunamis e mortes: 4 desastres naturais que marcaram o mundo, segundo National Geographic
- REHBEIN, K. D. da S.; ALVES, F. D. Mobilidade humana em face às mudanças climáticas: a urgência na criação de um instituto jurídico aos deslocados climático-ambientais. Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro, v. 16, n. 2, e90249, 2025. DOI: ++https://doi.org/10.1590/2179-8966/2025/90249++.
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